Cidade para todas as pessoas

Não só conheço como tenho o livro ‘Cities for People’ do Jan Gehl e recomendo! Grande pensador no urbanismo, sempre preocupado com cidades mais humanizadas.

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Em defesa dos skatistas

Um vídeo publicado ontem no youtube e divulgado massivamente nas redes sociais mostra um oficial da Guarda Civil Metropolitana à paisana agredindo um skatista na praça Roosvelt, no centro de São Paulo. O oficial sem farda aplica uma “gravata” no skatista com o consentimento de outros membros da GCM, que jogam gás de pimenta nos demais presentes para dispersar a revolta com a conduta violenta.

Com a repercussão do vídeo, a Secretaria Municipal de Segurança Urbana, responsável pela CGM, divulgou uma nota oficial em que afirma que “os responsáveis já foram identificados, afastados dos serviços externos e estão sendo ouvidos pela Corregedoria Geral da Guarda Civil Metropolitana, que adotará as providências cabíveis”.

No vídeo, o oficial à paisana se aproxima do cinegrafista e, em meio a diversos xingamentos, o chama de vagabundo. “Você não serve para porra nenhuma”, diz o membro da CGM ao skatista.

E ele não podia estar mais errado.

Enquanto, em São Paulo, a polícia tenta violentamente oprimir skatistas pelas ruas, em outras cidades do mundo, o skate é visto não só como uma forma de lazer muito incentivada como um importante meio de transporte que pode integrar soluções de mobilidade.

A placa acima, por exemplo, foi uma agradável surpresa com a qual me deparei nos primeiros dias em que estive em Portland. Detentora da fama de melhor cidade dos Estados Unidos para pedalar, a maior cidade do estado do Oregon, na costa oeste americana, não só possui uma rede de ciclovias e pontes acessíveis para ciclistas como possui rotas de skate, para que a prancha sobre quatro rodas seja usada também como um meio de transporte.

Já em Copenhague, um projeto de revitalização que removeu a zona industrial que havia ao redor de um importante canal da cidade, criou áreas de lazer à beira d’água, com quadras poliesportivas e ralfs de skate. A capital da Dinamarca tem como norte há 50 anos o objetivo de ser uma cidade boa para seus moradores. E a criação de áreas de lazer que contemplem o maior número possível de atividades – natação, ciclismo, corrida, skate em velocidade, skate com manobras, etc – está entre suas prioridades.

Em Lyon, essa avenida à beira do rio Rhône era uma antiga via expressa para carros que foi desativada para se tornar tanto um espaço de lazer e contemplação quanto uma via de locomoção de veículos não motorizados. Pedestres dividem o espaço com bicicletas, patinetes, patins e skates.

Para o lazer dos skatistas, também foram construídos bowls nessa mesma via de Lyon, como o da foto acima. Seguindo a mesma lógica da tolerância, bicicletas e outros modais também são bem vindos para fazerem manobras nesse espaço.

E em Nova Iorque, a ciclovia do Rio Hudson faz questão de mostrar que as ciclovias permitem uma intermodalidade de veículos não motorizados.

De acordo com o urbanista Jeff Risom, que trabalha no Gehl Architects, do ponto de vista da mobilidade, a melhor cidade é a que possui mais opções. Segundo ele, a maioria dos deslocamentos feitos de carro em grandes cidades não ultrapassam os 5 quilômetros, podendo tranquilamente ser feitos por veículos não motorizados. A vantagem, nesse caso, é que os veículos não motorizados ocupam menos espaço, poluem menos, fazem com que seus usuários se exercitem, precisam de infraestrutura mais barata e abrem espaço nas ruas para os motoristas que realmente precisam se locomover de carro. Do ponto de vista da mobilidade, portanto, o uso do skate é um benefício para a cidade.

E do ponto de vista do lazer também. Veja o diagrama abaixo, retirado do livro Cities for People (Cidades para Pessoas, sem versão em português).

Ele estabelece que toda cidade possui três tipos de atividades nos espaços públicos: as necessárias, as de lazer e as sociais. De acordo com Jan Gehl, o autor do livro, a diferença entre uma cidade ruim e uma boa é a existência de mais atividades de lazer e sociais.

Nesse sentido, posso dizer que tive uma agradável surpresa na primeira vez em que estive na Praça Roosvelt depois de sua reforma e vi diversos skatistas ocupando aquele espaço fazendo manobras. Todos simpáticos, me respeitando como pedestre, esperando que eu me afastasse até que fosse seguro voltar a girar as rodas sob a prancha.

Infelizmente o oficial à paisana que aplicou uma gravata no skatista acha que, por estar se divertindo em um espaço público com seu esporte favorito, ele é vagabundo. Mas a suposta obsolescência do skatista não podia estar mais equivocada. Obsoleta é uma guarda policial que impede as pessoas de ocuparem e usufruírem de sua própria cidade.

Fotos: Natália Garcia, reprodução do vídeo citado e reprodução do livro Cities for People

Texto e fotos retirado do blog: http://planetasustentavel.abril.com.br/blog/cidades-para-pessoas/2013/01/07/em-defesa-dos-skatistas/

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