ENTREVISTA COM THOM MAYNE

Matéria originalmente publicada pela Revista Época em 26/11/2013. Texto de Guilherme Evelin.

– O arquiteto rebelde mais premiado do mundo diz que mudar radicalmente o projeto de edifícios é uma questão urgente de sobrevivência urbana –

GAROTO PROBLEMA
Thom Mayne em São Paulo. “Honestamente, sou meio tedioso”, diz ele (Foto: Letícia Moreira/ÉPOCA)

Metrópoles como São Paulo e Rio de Janeiro, no Brasil, ou San Francisco, nos Estados Unidos, reúnem mais habitantes que a Holanda – um país. Para Thom Mayne, arquiteto americano ganhador do Prêmio Pritzker de 2005, o crescimento levou essas cidades ao ponto de exaustão. “Devemos repensar as cidades, por uma questão de sobrevivência biológica”, diz. Mayne defende uma visão da arquitetura menos ligada à estética dos edifícios e mais voltada à integração urbana. Uma proposta, afirma, próxima ao trabalho de Oscar Niemeyer ao conceber Brasília, nos anos 1950.

ÉPOCA – Qual a diferença entre fazer um projeto para o Estado e para uma empresa privada?
Thom Mayne –
 O Estado é um cliente complexo, de várias cabeças. Um projeto público é mais pé no chão, do ponto de vista de orçamento, e mais coletivo, do ponto de vista do uso. Deve ter mais áreas abertas, praças externas ou saguões internos. Numa empresa privada, você trabalha com um contratante só. Há uma ideia central mais clara.

ÉPOCA – O arquiteto Oscar Niemeyer (1907-2012) recebeu uma série de encomendas do setor público brasileiro. Seus colegas de trabalho o chamavam de arquiteto do Estado, uma forma de desmerecer seu trabalho. É correto favorecer um arquiteto?
Mayne – 
Esse é um assunto realmente complexo. Niemeyer conquistou uma posição singular na arquitetura brasileira e alguns, parece, o desafiaram. Ele era um arquiteto muito, muito bom. Oito anos atrás, fui barrado num aeroporto de Los Angeles, a caminho do Brasil. Pediram meu visto, e eu não tinha. Então, disse: “Preciso viajar, tenho uma reunião com Oscar Niemeyer”. A funcionária da empresa aérea respondeu: “Oh, ele é uma das pessoas mais conhecidas do país. É Pelé e Niemeyer”. Quantos países têm, entre suas pessoas mais conhecidas, um arquiteto? Ele era escolhido para os grandes projetos, mas foi um arquiteto singular. A singularidade não era um problema dele. Talvez, dos outros arquitetos.

ÉPOCA – O que o senhor acha do projeto de Brasília, desenvolvido nos anos 1950 por Lúcio Costa e Niemeyer?
Mayne –
 Brasília é o mais ambicioso e inovador exemplo de planejamento urbano do século XX. Aqui, no Brasil, vocês puderam repensar inteiramente uma cidade. Isso deveria ser feito mais vezes. O desafio que temos no século XXI é menos na cidade inteira e mais em prédios individuais. Mas a proposta de Niemeyer é muito atual. Como arquiteto, ele mudou comportamentos sociais.

ÉPOCA – Usar a arquitetura para mudar comportamentos sociais, como fez Niemeyer, ainda é uma ideia atual?
Mayne –
 Os problemas atuais são evidentes. O crescimento da urbanização é um problema do fim do século XX. E tem a ver com mudanças radicais na força de trabalho, nas condições socioculturais e na transição de uma natureza agrária rumo a indústrias e serviços. Com isso, vieram grandes agregações urbanas jamais experimentadas. Estamos trabalhando em nível governamental para encarar isso? Estudamos astrofísica, estudamos matéria escura, a natureza do mundo, a fim de entender o Universo, mas não há ninguém realmente olhando para esse problema dos grandes aglomerados urbanos.

ÉPOCA – Nem nos Estados Unidos?
Mayne – Os políticos de meu país estão interessados em contradições ridículas, como direito ao aborto, quando os problemas de hoje são questões reais de sobrevivência. A população urbana triplicou em 40 ou 50 anos. Não temos uma cultura ecológica capaz de sustentar isso. O adensamento crescente está limitado não apenas por recursos naturais, mas por infraestrutura, instituições sociais e estratégias políticas. Em junho, a população no Brasil protestou. Estão todos perto do ponto de exaustão. No ano passado, andei por São Paulo por três dias. Nunca vi o trânsito da cidade tão horrível. Não dá mais para dirigir. Se você olha um modelo – como cientistas fazem ao estudar microbiologia ou astrofísica –, o modelo cresce mais e mais, até um ponto em que quebra.

ÉPOCA – Como tal crescimento das cidades muda a natureza da discussão?
Mayne –
 Cidades já são como países. A área metropolitana de Los Angeles reúne por dia 7,9 milhões de pessoas. É igual à Holanda. Equivale a duas Suíças. Se você entender aquela cidade como um país, começa a entender a complexidade de hoje. O prefeito de Los Angeles equivale ao líder de Estado da Holanda. Por sinal, Los Angeles é mais complicada que a Holanda. Tem uma base econômica e social muito mais diversa. Então adicionar mais uma pista às autoestradas não resolverá o problema. Os deslocamentos de carro em Los Angeles, por dia, somam uma distância equivalente a 6 mil voltas ao mundo. São viagens pequenas, individualmente, mas quando olhamos para o conjunto… Um arquiteto é parte desse problema, pois transportes e edifícios consomem 70% da energia da cidade. Edifícios, sozinhos, consomem 40%.

ÉPOCA – Quando o senhor ganhou o Prêmio Pritzker, em 2005, disseram que o prêmio havia ido para…
Mayne –
 …o bad boy (garoto problema).

ÉPOCA – Disseram que o senhor era um filho dos anos 1960 e tinha permanente desejo por mudança.
Mayne –
 A história de bad boy começou anos atrás. A repercussão da conquista do Pritzker ajudou a aumentá-la. Fizeram centenas de textos a meu respeito, mas só um jornalista ligou para mim. Ele disse: “Todo mundo diz que você é um bad boy. E você vem fazendo escolas, tribunais e edifícios do governo… isso não bate. Você não deve ser tão difícil, para trabalhar com toda essa gente”. Honestamente, sou meio tedioso. Sou completamente devotado a meu trabalho e a minha família. Sou um cara reservado. Tenho 69 anos. Na minha idade, vejo essa história de bad boy como uma piada. Mas é preciso ter assunto para escrever e, infelizmente, não há muita gente interessada em ideias de arquitetura. Apareci num momento em que os Estados Unidos eram um país muito rico e conservador. Os anos 1960 foram feitos para mim. O centro artístico do mundo estava em Los Angeles, e eu morava lá. Foi um momento fantástico. Havia sexo, drogas e rock’n’roll, que são ótimos, mas não é o que importa. Houve uma revolução social. As conquistas sociais dos negros, a campanha contra a Guerra do Vietnã… Os problemas que enfrentamos hoje são desafios ainda maiores.

ÉPOCA – Como o desejo de mudança aparece em seu trabalho?
Mayne – 
Ao projetar o San Francisco Federal Building, um prédio de escritórios do governo federal, tiramos o sistema de ar-condicionado. Abrir o prédio à circulação do ar ambiente foi complicado, por questões de segurança. Mas a economia de energia é suficiente para alimentar 600 lares. Seiscentos lares! Isso pode ser a parte mais importante do projeto. Um arquiteto deveria dar prioridade ao visual do prédio? Não, não, não, não. A decoração é uma escolha pessoal, não traz consequência. Nos importamos com o que o prédio acrescenta à cidade no aspecto social, econômico, cultural, ecológico, urbanístico, de infraestrutura… Nosso edifício não tem estacionamento. Você pode ir de metrô. Estamos desencorajando o carro. As pessoas podem ir até lá dirigindo, mas estacionar é problema delas, não nosso. Voltamos nossas atenções a uma creche para os filhos dos trabalhadores, em vez de ter um saguão bonito ornado com esculturas. Dissemos: “Vamos fazer um lobby com um lugar onde os pais possam descer e ver seus filhos o dia todo, porque 55% da força de trabalho é de mulheres, e elas sentem falta de ver seus filhos. Podemos ter uma creche nesse prédio grande, onde trabalham 4 mil pessoas”.

ÉPOCA – Qual o papel do arquiteto em cidades do tamanho de países, como Los Angeles?
Mayne – 
O urbanismo caminha para o lado da política. Da liderança de ideias. Arquitetura é design, mas é também organizar grupos de pessoas. Creio que a discussão a respeito de Niemeyer sempre se deu no nível estético. As pessoas aprovam ou reprovam seu trabalho esteticamente. É um erro. Deveriam discutir mais a proposta. Deveriam questionar o trabalho dele pelo aspecto do desempenho, pelo aspecto da função. Queira o arquiteto ou não, não existe mais edifício sozinho, indiferente aos outros. Eles são conectados a seu redor. Repensar as cidades é uma ideia que tem de contagiar todos, algo como a corrida espacial para a Lua, nos anos 1960. Isso não parece um foguete espacial, não é algo especialmente bonito, mas o desafio pode se tornar atraente e interessante. O trabalho de hoje nos leva de volta a Niemeyer. O assunto ainda é estética, mas temos de nos conectar a uma realidade maior.

 

 

FONTE: http://thecityfixbrasil.com/2013/11/27/thom-mayne-cidades-ja-sao-como-paises/

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