Ideias e projetos urbanos que priorizaram as pessoas

É possível que haja um consenso entre os leitores dessa reportagem e sejam todos – ou a grande maioria – moradores de uma cidade, com o desejo de melhorá-la. As divergências começam quando tentamos estabelecer como será essa melhora. Transporte público de qualidade, áreas verdes, calçadas e ciclovias estão entre as demandas mais comuns, mas o fato é que estabelecer parâmetros e critérios do que é uma cidade para pessoas não é uma ciência fácil.

Com essa questão em mente e minha bicicleta dobrável na bagagem, percorri destinos pelo mundo para tentar levantar ideias e projetos que pudessem inspirar as cidades brasileiras. A primeira parada foi Copenhague, na Dinamarca, onde procurei o especialista mais reconhecido do mundo sobre esse assunto. “Sabemos tudo sobre o habitat ideal de qualquer mamífero da face da Terra, menos do Homo Sapiens, e não é nisso que a maioria dos urbanistas pensa ao fazer um projeto para uma cidade”, disse-me o planejador urbano Jan Gehl, que vem dedicando uma carreira de mais de 50 anos em seu escritório Gehl Architects a tentar melhorar as cidades para seus moradores.

Nessa conversa, Gehl me explicou que as soluções e projetos precisam ser locais e adequadas à realidade de cada cidade. Mesmo assim, segundo ele, há algumas regras imprescindíveis para que as cidades proporcionem uma vida de qualidade a seus moradores. Depois de passar por 12 cidades, constatei que essas regras, abaixo descritas, estavam certas.

As cidades são feitas de pessoas

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É um fato óbvio, mas pouco lembrado nas cidades brasileiras. Por aqui é comum que as diretrizes para o desenvolvimento dos centros urbanos sejam o crescimento econômico, o mercado imobiliário, as grandes empresas e indústrias – todas peças importantes, mas que acabam se sobrepondo ao que deveria estar em primeiro lugar: as pessoas.

Nos espaços públicos, deve-se respeitar a Escala Humana

É muito mais agradável percorrer uma cidade com dimensões adequadas para serem contempladas “do chão”, a partir dos olhos das pessoas. “O corpo humano possui dimensões e capacidades físicas de locomoção que muitas vezes são esquecidas em projetos de prédios e espaços públicos”, explica Jeff Risom, urbanista novaiorquino membro do time do Gehl Architects. Para ele, uma cidade para pessoas é feita para ser contemplada à pé, a 5 km/h. “Uma escala muito grande ou muito rápida destrói a relação das pessoas com os espaços públicos”, explica.

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Na cidade americana de Portland, por exemplo, a urbanização dos rios foi feita com grandes avenidas e viadutos nas margens, o que tornava quase impossível admirar o local. Com o tempo ficou claro como a qualidade de interação com o rio melhoraria com a criação de um Waterfront – expressão que designa a margem urbanizada de um rio – para ser percorrido à pé e de bicicleta.

A cidade precisa contemplar a diversidade das pessoas

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“Para estabelecer um senso de respeito mútuo e tolerância, temos que contemplar a maior diversidade possível de pessoas nos espaços públicos de uma cidade” explica Risom. “É preciso ter espaço para jovens e idosos, homens e mulheres, ciclistas, pedestres, motoristas e portadores de quaisquer deficiência”, exemplifica Risom. Uma cidade tolerante com sua população tenta contemplá-la ao máximo em sua diversidade nos espaços públicos. Se todos têm seu lugar, não há necessidade de brigar por espaço e a convivência tende a ser mais harmônica, segundo o urbanista. Em Copenhague, os pedestres, ciclistas, motoristas e cadeirantes têm sempre espaços definidos e respeitados pelas ruas da cidade. Já em São Francisco, pessoas de vários gêneros e orientações sexuais, bem como com os adeptos a pouca ou nenhuma vestimenta, passeiam tranquilamente pelos espaços públicos. Mais do que tolerados ou respeitados, eles são tratados com a mesma normalidade de um homem de terno e gravata.

O clima de uma cidade deve ser um aliado

“Conhecer o clima local de uma cidade e fazer projetos em que ele seja respeitado é primordial para a qualidade de vida das pessoas”, afirma Rick Burdett, diretor do London Schools of Economics Cities. Isso é algo que percebi instintivamente. Quanta vezes eu não saí na rua em São Paulo em pleno verão e reclamei “que calor infernal”. Curiosamente precisei ir até a Europa para me lembrar de que o clima quente é um recurso positivo, desde que tenhamos espaços públicos para aproveitar o calor.

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Em Paris e em Londres, as avenidas que correm na margem dos rios Sena e Tâmisa são convertidas em praias artificiais e centros de cultura e lazer durante o verão. Em Portland, como chove muito o ano todo, os revestimentos em concreto e asfalto, que são impermeáveis, começaram a ser substituídos por calçadas verdes. O resultado são ruas mais bonitas e agradáveis para caminhar, um rio mais limpo – porque a água vai se infiltrando no solo e chega mais purificada ao rio – e uma cidade sem enchentes nem alagamentos.

Talvez a maior lição seja que uma cidade para as pessoas precisa ser construída de maneira colaborativa entre o poder público, a iniciativa privada e a sociedade civil organizada. É um processo sem fim. Ao longo das próximas edições da VERO, novas reportagens irão se debruçar sobre algumas ideias que deram certo em cidades pelo mundo e podem nos inspirar pelo Brasil.

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